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Meio-dia pras 4

Machado cego

Escrito em 24/03/2017
Breno Airan


Gaia (Alex Grey, 1989)

Oscar Wilde dizia que uma verdade deixa de ser verdadeira quando mais de uma pessoa acredita nela. Por isso, ultimamente tenho ficado tanto em silêncio. Em debates até interessantes, em brigas desnecessárias. Ainda tô treinando. É muito difícil a gente não falar nenhuma besteira. Por impulso. Por uma certa opressão de expressão. Parece uma necessidade urgente a gente se posicionar hoje em dia. A respeito de tudo. Ter respostas e espalhá-las por aí, seja em qual veículo for. Como um machado cego que teima em querer cortar a Árvore da Sabedoria na base, mas só faz machucar a si mesmo com as reações da 3ª Lei de Newton. Banhados de ilusão, nós batemos com mais força. E mais força.

Até que uma camada, um sulco, se abre na superfície do caule e a gente percebe que ali embaixo também há vida. Como nós também a possuímos. Apesar do baque contínuo, a árvore não responde com crueza ou mesmo revidando com farpas. Ela nos responde em silêncio, apesar da dor. Quando a clareza desse momento se dá em nossa mente, o machado cego abre os olhos e começa, como nós, a enxergar. “Nunca vou ser afiado em minhas palavras”, diz ele uma única vez para, então, morrer mudo. E aquela verdade deixa de ser verdadeira assim que ele a coloca pra fora. Talvez não aguentasse mais estar nas mãos de quem não sabia sofrer e deixar ir. Deixar ouvir. Deixar notar que no meio desse texto há um corte profundo entre os dois parágrafos.